Como a idade passa por nós
Não
há grande metafísica nisto. Simplesmente, envelhece-se porque se envelhece;
ficamos mais velhos porque ficamos mais velhos. E creio, ainda hoje, que é a
única grande sabedoria que vale a pena destacar – aprender a ficar velho,
aprender a envelhecer, aprender a aceitar a “vinda da idade”.
O
assunto, expliquei já ao leitor, não me mobilizou para lá do aceitável. Na
família, sempre se pensou que eu nascera já com uma idade aceitável, preparado
para encarar a passagem dos anos com a tranquilidade de um homem maduro que
ultrapassou a adolescência sem desejar pôr bombas na rua ou experimentar drogas
em Katmandu (falo por ouvir dizer). Não é totalmente verdade: houve sempre um
pouco de preguiça a ajudar; e de conformismo, naturalmente. No meu tempo de
adolescente deveria, portanto (recordo a sugestão atrasada da minha sobrinha
Maria Luísa), ter-me contentado em permanecer naquele estádio puramente animal,
praticando râguebi e vigiando as belas de então, que alegravam o limbo de
qualquer jovem candidato a um casamento mediano. Não casei. Não envelheci no
meio de ruído nem de alegrias familiares. Não constituí, como diz a Pátria
inteira, uma família.
O
mundo de hoje valoriza a adolescência exactamente pelos mesmos motivos que me
levam a colocá-la no seu lugar, apenas no seu lugar, arrumada entre os livros
de Walter Scott e os álbuns das primeiras viagens a Espanha. Não vejo que
felicidade possa existir da visão de um pobre ser de quinze ou dezasseis anos,
condenado a mudanças genéticas e fisiológicas ou a erros fatais de gosto e de
penteado. Portanto, não aprendi propriamente a envelhecer, mas a verificar a
passagem do tempo, descendo com ele (ou subindo) os degraus da idade, sem
dramas nem ilusões românticas. O mundo – isto tudo – mudou muito nos últimos
anos e, por vezes, eu sinto-me um plácido reservatório de antiguidades, ou
mesmo de velharias. Há, como se sabe, uma diferença entre as duas coisas. Eu
fico entre ambas, creio que pairando, aproveitando a vaidade que a velhice não
torna escandalosa mas que o bom senso não recomenda – por não ser boa para a
saúde.
Também
não tenho uma visão romântica sobre a velhice nem sobre o envelhecimento. Somos
muitos, demasiados – os velhos. Os meus irmãos explicam-me que isso constitui
um desastre para as contas do Estado, para o futuro da pátria e para o
bem-estar dos vindouros. Tento dizer-lhes que isso se deve ao mito da eterna
juventude muito em voga hoje em dia: pessoas que querem continuar jovens,
temendo o envelhecimento.
in Domingo - Correio da Manhã - 9 Setembro 2012
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