O passado em Moledo e sem remissão
Passados
mais de cinquenta ou sessenta anos recordo alguns dos gestos com que a minha
vida ficou marcada: o de escolher o lado da varanda onde o sol bateria mais
tarde, o de guardar folhetos de cordel comprados nas feiras do Minho, ou, pura
e simplesmente, o gesto do velho Doutor Homem, meu pai, desempacotando os
exemplares do ‘Daily Telegraph’ que chegavam todas as semanas.
Esse
mundo tem um grau de perfeição que raramente vi repetido mais tarde. Há
excepções: o ruído dos meus sobrinhos chegando para as férias de Verão, a voz
da Dra. Celina subindo as escadas e confirmando que determinado livro existe na
biblioteca de Caminha, a minha sobrinha Maria Luísa quando perde a manha da
política e da sensatez geral – e descobre que havia um mundo antes da
democracia, da televisão a cores e dos romances escritos em conflito com a
gramática. São apenas pormenores, momentos de uma recordação que se esvai e que
pode competir com o arroz de pato da Tia Gabriela ou com a forma como Dona
Elaine comenta, com desvelo, a desorganização da moral e dos costumes de hoje.
A
minha sobrinha Maria Luísa acha isto o zénite do reacionarismo enquanto tento
explicar que o mundo favorece com apetite e entusiasmo aquilo que é mau e
despreza frequentemente os momentos e os gestos de virtude, mesmo aparente. Ela
não conheceu a Tia Benedita, que via o espírito de Afonso Costa pairar sobre a
Pátria, desejoso de demolir igrejas e pretendendo matar à fome o Príncipe
proscrito. Tentei várias vezes convencê-la de que o senhor Dom Miguel tinha
morrido na Alemanha, junto da Princesa Adelaide, reconfortado e esquecido,
muito antes da República e do exílio do Dr. Cunha Leal em Vigo. Ela não
acreditava. Maria Luísa também não acredita que o mundo se encaminha para a
catástrofe ou para a dissolução, precisamente pelas mesmas razões. Tal como a
matriarca miguelista da família, Maria Luísa acha que todas as coisas têm um sentido.
Tento, com algum esforço melancólico, explicar-lhe que isso não existe. Não
porque lhes falhe (às coisas) um sentido, mas porque existem vários e em
simultâneo.
É
preciso dizer que Maria Luísa tem pela Tia Benedita, que não conheceu, uma
ternura que ultrapassa a imaginação do leitor, mesmo que continue a imaginá-la
vigiando os costumes da família, convocando os frades de Braga e acendendo
velas pela conversão da Rússia. Vê-a também como uma figura de romance,
espreitando das ameias a dissolução do mundo. Não acho: a Tia Benedita
acreditava que o mundo não tinha solução e limitava-se a fintar-nos.
in Domingo - Correio da Manhã - 15 Julho 2012
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